Falando de obras que me têm caído nas mãos durante minha vida em meio a livros, pesquei do fim da pilha a Antologia Poética, de Cecília Meireles. A primeira vez que li esse livro, ou que li alguns dos poemas, foi por pura falta do que fazer, confesso. Não tinha nada entre meus livros que me apetecesse, catei esse no meio da poeira e fui ler.
Bem... no fim da história, encontrei poemas belíssimos, agradáveis, musicais... demonstrando em uma cadência clara e suave um mar profundo de sentimentos... Trago aqui dois de meus poemas preferidos.
#1
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço
não sei, não sei. Não sei se fico
— ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
#2
Pássaro
Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca,
não do espinho na garganta.
Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.
Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.
Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.
já não canta.
Morreu de uma flor na boca,
não do espinho na garganta.
Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.
Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.
Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.
