Domingo, Fevereiro 14

A Maga

Eles foram derrotados. Um por um. Diante de seus olhos, todos caíram. Vira cada golpe da arma amaldiçoada que os lacerara carne e espírito sem poder desviar o olhar. Corpos destruídos e carne despedaçada. Vira o sangue esguichar dos ferimentos. Sangue daqueles treinados para defendê-la e protegê-la. Seus amigos. Olhava agora quase que em transe para o guerreiro parado à sua frente. Aquele que os assassinara.

[O sangue corria quente através de seu corpo. A morte impregnada em sua carne. A força da maldição dominando cada pedaço de seu ser. Quem era ele? Não sabia. Há muito tempo se perdera. Olhava a mulher, ajoelhada no chão encharcado de sangue. Percebia a palidez de sua pele. Ela parecia não se dar conta do sangue que a cobria. Suas mãos agarravam um objeto longo enrolado em tecido. E os olhos estavam fixos nos seus. Olhos assombrados, torturados. Olhos prateados que pareciam ver o que outros não viam. Olhos que ele, no íntimo de seu ser, reconhecia.]



Podia sentir o toque das mãos frias dos espíritos em seu rosto, em sua pele. Ouvia seus gritos distantes e fracos, gritos de almas desesperadas. Podia sentir o poder da magia emanando do objeto em suas mãos. Podia sentir a fagulha a acender seu sangue, queimar seu espírito, a dominar seu ser.
Seus olhos estavam fixos nos olhos do guerreiro. Via a fera que devorava seu espírito, os demônios que o dominavam. Sentia seu desespero, mesmo que ele não o sentisse. Via sua alma encarcerada e o eco longínquo de um pedido de ajuda. Em um gesto puxou o pano que envolvia o objeto e se levantou. A espada brilhou em sua mão.

[Observou-a levantar com os olhos ainda nos dele. Viu quando desenrolou o objeto. Mas não percebeu o que era. A fera rugiu em seu interior, dominando-o novamente. A fera agitou-se. No ar sibilou a promessa da morte.]

Viu quando ele atacou. E ouviu o grito desesperado de seu espírito dominado. Levantou a espada, clamando por seu poder. A magia a dominou, um zumbido irrompeu no ar. Os espíritos que a rodeavam estremeceram e uniram suas vozes em uma só. As armas se tocaram e se afastaram. O guerreiro saltou para trás. A fera espreitava por seus olhos. Avançou. Em um movimento ela esquivou-se. Outra vez mais a fera ergueu a arma. Mais uma vez se esquivou do golpe. O som dos metais era violento. Os golpes muito mais fortes.
Maga e guerreiro se encaravam. A fera a estudava. A espada segura na mão. A mulher então agiu. Ergueu a arma em linha com o corpo. O metal reluziu no sol do fim da tarde. O vento agitou e espalhou seus cabelos negros como uma nuvem a envolver seu corpo. Seus lábios moveram-se suavemente e sua voz cortou o silencio com palavras de um idioma estranho e melodioso. Os espíritos a rodearam, seus lamentos acompanhando os tons das palavras. A maga parecia reluzir com a força do encantamento. Um halo de luz envolveu a espada e o ar estalou com a energia. A fera se agitou e um rugido animalesco chegou a superfície pela garganta do guerreiro.
A maga disse as ultimas palavras do encanto. E atacou.

Seu golpe cortou o ar na direção da fera, que atacou para se defender. A maga girou a espada, os espíritos de seus guerreiros guiando-a. Em um breve toque de metal contra metal, a espada do guerreiro foi afastada para o lado com a sua, que cravou-se direto no peito do guerreiro, atravessando a armadura que o cobria. A maga retirou a espada. Estranhamente o guerreiro parecia intacto. O encanto acabou. A magia sumiu. E a maldição se quebrou.
O guerreiro ficou imóvel por um longo tempo. E abaixou a espada. A mulher, exausta caiu ajoelhada. Ele olhou em volta. A espada caiu de sua mão. Sua cabeça baixou.
"Perdoe-me."
Ela o olhou. Por um longo tempo houve o silêncio. Ele ergueu a cabeça e olhou para o horizonte. O elmo cobria seu rosto. Por fim a suave voz da maga cortou o silêncio:
"Não posso perdoá-lo."
O guerreiro baixou a cabeça.
"Entendo."
Com esforço ela se levantou.
"Não, não entendes, bravo amigo."
Caminhando lentamente ela se aproximou dele. Pousando as mãos em seu elmo, fez com que seus olhares se encontrassem.
"Eu não o perdoarei porque não existem motivos que o tornem culpado. Culpe quem o amaldiçoou, e não a si mesmo."
Ela suavemente tirou o elmo que cobria seu rosto.
Ambos se olharam.
Sua mão se ergueu, pousando suavemente no rosto do guerreiro.
"Eu a conheço."
Não era uma pergunta. E ao mesmo tempo não deixava de ser. Ela via sua dúvida. E via o tênue reconhecimento em seu olhar. Sentiu seu coração mais uma vez se apertar. De tristeza, de amor, de tormento.
Suas memórias jamais retornariam. Seu espírito nunca mais seria o mesmo. A maldição foi quebrada, mas seus rezultados sempre estariam ali. Destruiu-o.
Sua mão afastou-se bruscamente do rosto do rapaz. Seus olhos se desviaram.
"Não. Não me conheces."
A mentira doeu em seu coração.
"É melhor que partas destes reinos. Por mais que não tenhas sido o culpado o temor de seus feitos perdurará."
Começou a afastar-se dele. Não queria ver seus olhos novamente. Não queria ter que encarar o sofrimento em seus olhos.
"Que os bons espíritos velem por você em sua jornada, guerreiro."
"Obrigado, maga. Que zelem por seu povo também."
Ela se afastou, caminhando até que as arvores a encobrissem. Então parou e olhou para trás, para o guerreiro.
O guerreiro continuou parado ali por um momento, as primeiras estrelas aparecendo no céu às suas costas. Ela viu o momento em que ele se inclinou e pegou sua espada no chão e guardou-a na bainha. Por fim virou-se e foi embora, sua figura diminuindo e sumindo na noite que estava nascendo.
Dos lábios da maga saiu um grito, abafado por sua mão. Agarrou-se a uma árvore, as lágrimas escorrendo pelo rosto, desenhando linhas nas manchas de pó e sangue que maculavam seu rosto. Escorregou lentamente ao chão. Com seu último sopro de voz, sussurrou:
"Adeus, meu amor..."

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